Carta de amor e ódio

Querido Tom, 

A nossa relação começou de forma estranha: eu estava desolada e triste com o mundo, talvez porque não tivesse amigos ou, então, era típico daquela idade, fazer algo sem sentido, só para chamar a atenção, quando tu chegaste e me ofereceste ajuda. Fiquei curiosa. O meu primeiro pensamento foi que talvez fosses alguém com segundas intenções, alguém que se quisesse aproveitar de uma rapariga que estava chateada com o mundo, ou de uma rapariga cujo namoradinho a tivesse trocado por outra de silhueta mais atraente. Ou então que fosses alguém que pensava que ao ajudar-me poderia receber algo em troca, como dinheiro ou algo mais íntimo, até. No meio de todos estes pensamentos, de toda esta minha curiosidade, lá estavas tu, a olhar para mim com o sorriso mais típico dos charlatães mais conhecidos do cinema. O problema é que a depressão é complicada, e no calor do momento, colocada sobre a pressão de ter de te dar uma resposta para a situação não ficar ainda mais estranha, decidi aceitar a tua ajuda. 

Estenderes-me a mão foi o teu primeiro passo. Bastante cliché, admito, mas eficiente. De seguida, entrámos numa espécie de rotina. A princípio achei que fosse algo desnecessário, um incómodo apenas, mas que segundo a tua ideologia, servia apenas para me ajudar. Acreditar em ti foi o meu primeiro passo. Bastante precipitado admito, mas aparentemente eficiente. Acreditei em ti porque, por mais que não concordasse com o teu método de ajuda, com a tua ideologia sádica e egoísta, por mais que achasse que isso não me levaria a lado nenhum, só pelo facto de ser uma possível solução, uma possível saída para a minha insignificante depressão, significava muito! E foi essa minha confiança depositada em ti, foi essa minha crença de que eras o meu ponto de partida para a minha fuga, que me fez ver a primeira característica que eu iria invejar em ti: a tua coragem. Não te importava o que os outros pensavam. Não te importava o que eu pensava. A tua única missão, a única coisa que te importava, era ajudar-me, e eu admirava isso. Por onde quer que eu fosse, tu seguias-me. Qualquer coisa que eu fizesse, tu ajudavas-me. Qualquer coisa que eu dissesse, tu questionavas me se era a coisa certa a se dizer. Foi através dessa reflexão, que eu voltei a relacionar me com os meus amigos e família. Foi através do teu método, que eu escapei do labirinto que é a depressão. Eu acreditei na tua promessa, e tu cumpriste. 

Fiquei sem palavras para te agradecer. Era uma sensação diferente, nunca ninguém me tinha ajudado com tal paixão e dedicação, parecia até um sonho. Pois, um sonho… Posso nunca ter sido grande aluna a português, mas se há uma coisa que admiro na nossa língua é a veracidade dos nossos ditados. Pode ter sido culpa minha, depois da tua ajuda fiquei tão grata que talvez tenha criado uma relação de afeto contigo… Mas de todo queria que te tornasses tão obsessivo, tão controlador… Parecia até um filme de terror! Onde quer que eu fosse, tu perseguias-me! Qualquer coisa que eu fizesse, tu ameaçavas-me! Qualquer coisa que eu dissesse, tu calavas-me, proibias-me de falar! Deixou de ser uma simbiose, onde tu me ajudavas e eu contribuía para os teus gostos bizarros, para ser um parasitismo, onde apenas tu saías beneficiado com esta nossa relação. E isso levou ao segundo atributo que eu mais invejava em ti. Por mais que essa característica fosse minha, por mais que fosse eu que possuía essa qualidade, eu invejava a tua inteligência. A inteligência que usavas para me manipular e me controlar das maneiras mais terríveis possíveis. Foi essa tua (e minha) inteligência que me levou a amar-te. Sim Tom, eu amo-te! Não te amo porque eu quero, não porque continuo atraída por ti, mas porque tenho de te amar. Tenho de te amar, caso contrário fico nervosa, a minha auto-estima baixa e o meu cérebro vai à loucura. É esta nossa relação que leva os meus amigos a dizerem que eu te devo esquecer, que eu me devo separar de ti! Mas é este amor incondicional e indescritível que tenho por ti, que torna isso impossível! É este meu amor, Tom, que leva os outros a lançarem-me olhares de desprezo quando ando na rua a evitar todas as rachaduras no passeio. É este amor, Tom, que leva os outros a perguntarem-me se está tudo bem quando mostro anseio e preocupação por me dizeres que deixei a porta de casa aberta, quando já confirmei dez vezes que estava fechada. É este meu amor, Tom, que leva os outros a terem pena de mim, quando me vêem isolada num canto, com medo dos meus medos, com medo de ti! E sabes uma coisa, Tom? A última coisa que eu quero, é que tenham pena de mim… 

– Carta de uma adolescente vítima de TOC.

Nota do Espaço PsicoVida: Esta carta foi escrita na adolescência por Pedro Fernandes e distinguida com um prémio de redação. A sua partilha foi gentilmente autorizada pelo autor com o propósito de dar voz à experiência do TOC e acolher quem vivencia esta “relação”, mostrando que não estão sozinhos e que existe apoio especializado.

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), tradicionalmente conhecida como TOC, vai muito além de meras “manias” ou do perfecionismo. Reconhecida clinicamente pelo DSM-5-TR como uma perturbação mental incapacitante, manifesta-se através de obsessões (pensamentos intrusivos, persistentes e geradores de grande angústia) e de compulsões (comportamentos ou rituais repetitivos que a pessoa se sente impelida a realizar para tentar neutralizar esse mal-estar).

1 Comentário

  1. Querido Pedro,

    Muito obrigada por tão gentilmente nos teres dado autorização para publicar esta tua carta.

    Ter a generosidade de partilhar um texto tão íntimo, escrito por quem viveu esta realidade em primeira pessoa, é um ato de coragem e sensibilidade. Sei que as tuas palavras vão ajudar muitas pessoas a compreenderem melhor aquilo que estão a vivenciar nessa autêntica “relação abusiva” com os próprios pensamentos, e, acima de tudo, a sentirem que não estão sozinhas.

    És talentoso e empático! Que a tua voz continue a trazer luz e acolhimento a quem precisa.

    Um abraço,

    Marília Castro

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