Quando a dor do outro, dói em mim

Quando a dor do outro dói em mim e se torna algo iniludível, podemos suspeitar que há lugares nossos, profundos, que estão a ser tocados. A resposta mais imediata – e nem por isso menos astuta – é pensar que, se dói, então aquela dor também é nossa. Como se testemunhar o sofrimento do outro, funcionasse também como uma espécie de âncora, que nos puxa para o passado e nos faz revisitar a nossa própria história, os nossos lugares escuros, os lugares de confusão, de angústia, de perda. Essa âncora, uma vez acionada, prende-se num lugar interno bem conhecido, mas nem sempre dado a conhecer: o lugar onde somos pequeninos, desprotegidos, inermes. Este é O Lugar onde a nossa Criança (vulnerável) habita e onde permanece  escondida por muito, muito tempo. Por vezes, uma vida inteira, enquanto espera que alguém –  outra parte nossa – decida iniciar uma viagem de resgate.

A criança Vulnerável é aquela parte nossa mais ferida e sensível. A parte que não se sentiu amada, aceite, protegida e apoiada (entre tantas outras necessidades emocionais fundamentais). A Criança Vulnerável, é aquela parte nossa que mais precisa de colo e acolhimento. É bem verdade, que presenciar o sofrimento alheio, pode acionar gatilhos e feridas nossas, chegando perto desse lugar sensível. Mas será que pode estar a acontecer algo mais, nos bastidores do nosso mundo emocional? E se, para nos protegermos de sentir essa nossa dor imensa, a dor que a nossa Criança sentiu, nos voltássemos na direção do outro, tentando cuidar da sua?

Pode parecer uma proposição incongruente e até insólita, mas é exatamente isso que acontece quando temos o Esquema (EID) de Auto-sacríficio. Aqui, o cuidado do outro, surge não como um gesto meramente altruísta, bondoso e benigno, mas como uma imposição. Algo que é uma condição, um pré-requisito à nossa existência perante o olhar do outro. Existo, se cuido. O meu valor aumenta na proporção da minha capacidade de proporcionar bem-estar, apoio ou cuidado emocional ao outro. Essa responsabilidade pelo outro, esse excesso de empatia, tornam-se assim uma prioridade absoluta, um desejo imperioso que se impõe de tal forma, que pode ultrapassar tudo, qualquer limite interno, calando as nossas próprias necessidades e remetendo-as para segundo, terceiro, e não raramente, para último plano.

A relação com o(s) outro(s) torna-se assim, despojada de autenticidade e acaso, tudo é medido, calculado, visto e revisto, numa tentativa incessante de que nada falta ao outro. De que nada em mim, seja objeto causador de mal estar no outro, pois essa possibilidade geraria uma culpa imensa. A relação com o outro (o companheiro, a mãe, a amiga) passa a ser terreno fértil para o utilitarismo: sou amada, porque, quando e – sobretudo – SE sou útil.

Esta dinâmica, tantas vezes inconsciente, pode até trazer um alívio momentâneo e ter sido útil no passado (no final de contas, todos os Esquemas surgiram como forma de adaptação e sobrevivência), mas, em simultâneo, ela vai tecendo buracos na nossa existência. Quando temos a Ferida (Esquema) do Auto-Sacrifício vivemos num constante anular de quem somos: há sempre uma parte nossa que é reprimida, escondida ou exilada. Vestimos a capa da super-mulher (ou super homem) e vamos na missão de salvamento. Não precisamos de ajuda, não temos problemas, não precisamos de apoio, compreensão ou facilidades. Não precisamos – acreditamos ou queremos acreditar – de Receber. O nosso Lugar no mundo, passa a ser, por defeito, o Lugar de dar ao outro. Se dou, existo. Se dou, poderei receber reconhecimento e amor.

É aqui, neste lugar sensível, que aquilo que começou por ser estratégia de sobrevivência na infância, passa a ser o nosso pesadelo em adultos. Os sinais de sobrecarga começam a aparecer, a solidão passa a ser a companhia mais frequente e a sensação de que ninguém nos conhece verdadeiramente, o nosso estado basal. É aqui que é traçada uma linha, este é o momento onde o mecanismo que antes permitiu lidar com a dor (da criança vulnerável) passa a ser o perpetuador dessa mesma dor.

Estes são os padrões emocionais que transportamos e repetimos vezes e vezes sem conta, como se de forma compulsiva, procurássemos  reviver aquela mesma experiência emocional familiar da infância: a mesma sensação de abandono, solidão, desconexão e desamparo. Querendo proteger aquela criança que transportamos dentro, acabamos por guiar a vida com dinâmicas relacionais imaturas e inconscientes, perpetuando o ciclo que a constringe e magoa. Iniciar o caminho de regresso, encetar o resgate dessa menina (ou menino) que transportamos dentro, pode ser desafiante, e em alguns momentos, doloroso. Mas não será a dor do auto-abandono, mil vezes mais dilacerante?

Em momentos como estes, onde o ímpeto de percorrer um novo caminho, parece gladiar-se com o medo do desconhecido, vale sempre a pena recordar uma frase antiga (cujo autor não conheço) e que é também a base da Psicologia Humanista: Mudar é difícil, mas permanecer do mesmo jeito de sempre, também.

Psicóloga Carina Oliveira

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