Os Alicerces da Gestalt-Terapia: E a GT como alicerce
Falar dos fundamentos de uma abordagem psicológica é como olhar para os alicerces de
uma casa. Eles são a base invisível que sustenta tudo o que cresce e permanece ao longo
do tempo. E, tal como uma construção viva, a nossa prática também passa por
“reformas” e manutenções à medida que evoluímos.
Neste artigo, convido-vos a conhecer as raízes da Gestalt-Terapia (GT) – uma
abordagem que nos ensina a olhar para o ser humano como um todo.
- O “Terreno”: A influência da Psicanálise
O ponto de partida foi a Psicanálise de Sigmund Freud. Fritz Perls, o principal
impulsionador da Gestalt-Terapia, foi formado por grandes nomes como Karen Horney
e Wilhelm Reich. Foi precisamente com Reich que Perls consolidou a noção de
‘couraça muscular’, o que justifica a enorme importância que a Gestalt dá ao corpo e à
postura como formas de comunicação não-verbal. No entanto, Perls sentiu a
necessidade de ir mais além, procurando uma visão que integrasse o organismo de
forma ainda mais dinâmica e presente.
Em 1942, o seu livro Ego, Fome e Agressão, foi como se Perls lançasse a “semente” da
discordância com a psicanálise, especialmente sobre as resistências orais versus anais.
Ele também propôs que o foco não deveria estar apenas na fala ou no passado, mas sim
na forma como o organismo se organiza no presente. - O Organismo como um Todo
Uma das grandes bases dessa abordagem é a ideia de que não somos apenas mente ou
apenas corpo. Influenciado por Kurt Goldstein, Perls adotou uma visão “holística”:
Sistemas internos: O nosso corpo procura sempre o equilíbrio (homeostase).
Sistemas de contacto: Através dos sentidos e do movimento, procuramos no
mundo aquilo de que necessitamos para crescer. - As Figuras Chave: Muito além de Fritz Perls
Embora Fritz Perls seja o nome mais associado à abordagem, a Gestalt-Terapia foi, na
verdade, um trabalho de cocriação do famoso “Grupo dos Sete”, que se reunia em
Nova Iorque para sistematizar as bases teóricas que deram origem ao livro, em 1951,
“Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality”, que é
considerada a “bíblia” da abordagem.
Dentre estas figuras essenciais, muitas vezes nos bastidores, destacam-se:
Laura Perls: Cofundadora, trouxe uma base intelectual e académica sólida, da
Psicologia da Gestalt, integrando a sua experiência e sensibilidade no teatro, na
dança e no movimento à prática clínica.
Paul Goodman: Escritor e filósofo, foi um dos principais responsáveis por dar
corpo teórico à abordagem, focando em conceitos fundamentais como a
novidade e o crescimento da personalidade.
Isadore From: Um dos teóricos e formadores mais influentes do grupo, cuja
contribuição foi decisiva para o rigor do pensamento gestáltico.
4. A Filosofia do “Aqui e Agora”
A Gestalt-Terapia bebe de fontes profundas como o Existencialismo e a
Fenomenologia. Isto significa que, em consulta:
Vemos o ser humano como um “ser-no-mundo”, em constante relação.
Focamo-nos na experiência presente (o aqui e agora).
Valorizamos a responsabilidade e a escolha: cada pessoa é o projeto da sua
própria vida.
Nomes como Martin Buber (com a ideia do encontro dialógico) e Husserl ajudaram-nos
a entender que a consciência é sempre “consciência de algo” e que o sentido da vida é
construído nas nossas relações.
Conclusão
A Gestalt-Terapia é, portanto, uma colagem rica de saberes que valoriza a criatividade,
o corpo e a presença. Ela não olha para o sintoma como algo a ser ‘extirpado’, mas como
um ajustamento criativo. Isto significa que o sintoma foi a melhor solução que o seu
organismo encontrou para sobreviver num momento difícil do passado. O problema é
que, ao tornar-se rígido, esse comportamento perdeu a sua função criativa no presente.
É um convite a sairmos do piloto automático e a assumirmos o papel de autores da
nossa própria história.
Embora a Gestalt-Terapia seja a minha abordagem de base, a minha prática clínica é
enriquecida por uma visão integrativa. Ao olhar de proximidade da Gestalt, somo a
Terapia Sistémica de Família, que me permite compreender cada pessoa não como
uma ilha, mas como parte de uma teia complexa de relações e contextos. Além disso,
tenho-me aprofundado nas Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC) de Terceira
Geração, ou Contextuais, com as quais me identifico profundamente.
É fascinante observar como muitas destas abordagens contemporâneas – como a
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a Terapia Focada na Compaixão ou a
Terapia Dialética Comportamental (DBT) – foram buscar à Gestalt-Terapia os seus
fundamentos. Na verdade, o conceito de awareness (o centramento e a consciência
plena no presente), tão central na Gestalt, é o precursor direto do que estas terapias
agora chamam de mindfulness. Ao integrar o foco na aceitação da experiência e a
importância da relação terapêutica como agente de mudança, estas pontes teóricas
fortalecem uma prática clínica mais completa e integrativa.
Ao ler sobre estas bases, sente que a sua forma de estar no mundo hoje é uma
escolha consciente ou sente que ainda está a viver sobre alicerces que precisam de
ser renovados?
Referência:
Loffredo, A. M. (1994). A cara e o rosto: Ensaio sobre Gestalt-terapia. Escuta.
Perls, F. S. (2002). Ego, fome e agressão: Uma revisão da teoria e do método de Freud
(G. D. J. B. Boris, Trad.). Summus. (Obra original publicada em 1942).
Perls, F. S., Hefferline, R., & Goodman, P. (1997). Gestalt-terapia. Summus. (Obra
original publicada em 1951).

